A vez do Linux no Desktop

Frequentemente as pessoas me perguntam quando é que o Linux vai dominar o mercado desktops.

Eu nunca dei uma resposta categórica, simplesmente porque não tenho uma bola de cristal, mas por esperança eu sempre digo que o tempo do Linux dominar o desktop está próximo. Recentemente percebi que estou enganado e talvez demorará muito mais do que se imagina para o Linux dominar os desktops.

Figura 1: Faixa de Atuação.

A razão é muito simples: As pessoas estão percebendo que não precisam de desktops. Constantemente aparecem novas soluções de conectividade, usabilidade e processamento que fazem os usuários convencionais se afastarem dos robustos e corpulentos desktops. Notebooks, netbooks, tablets e celulares cada vez mais poderosos são exemplos dessas novas soluções

Em 2007 a Asus introduziu o EeePC, um conceito “revolucionário” que posteriormente foi batizado de netbook, para muitos não foi nada novo, mas na verdade é uma evolução que vem acontecendo desde o primeiro computador com monitor e teclado, que teve origem em meados da segunda metade da década de 70. Na verdade, muito antes do EeePC outros fabricantes como a Sony já haviam introduzido no mercado equipamentos extremamente portáteis, porém do ponto de vista financeiro eram inviáveis para o consumidor comum. Olhando ainda para meados da década de 90 a HP comercializou um equipamento muito semelhante a um netbook, possuía display LCD monocromático e rodava DOS com aplicações como Lotus 123, chamava-se HP 200LX.

Do primeiro computador com teclado e monitor da década de 70, houve uma evolução para o computador de mesa do início da década de 80 em forma do modelo IBM 5150, conhecido também como o modelo original IBM PC.

Ainda no comecinho da década de 80 foi lançado o primeiro portátil. Nesse primeiro conceito de portátil a ideia inicial era poder montar facilmente uma estação de trabalho em qualquer mesa. Era um equipamento extremamente pesado (algo em torno de 22 kg), porém uma grande conquista para época.

Não demorou muito e os laptops revolucionaram a industria, porém ainda com pouco alarde, pelo menos no Brasil, pois as pessoas que tinham condições financeiras para adquirir um laptop, não possuíam conhecimento técnico para usa-lo. Uma fatia ínfima de afortunados que conheciam MS-DOS e tinham alguns milhares de dólares sobrando na carteira puderam aproveitar esses primeiros equipamentos que surgiram em 1984.

Somente 8 anos depois surgiram os notebooks com todo seu charme e mobilidade digno dos primeiros Thinkpad, porém apenas nas mãos dos executivos, pois esses equipamentos eram caros demais e apenas quem realmente tinha grande necessidade de mobilidade os possuíam. O título de portáteis permaneceu sob domínio exclusivo dos notebooks por muitos anos até o advento do já citado EeePC.

A evolução dos netbooks desde sua criação até hoje foi muito grande, essas incríveis maquininhas ganharam excelentes processadores, quantidade e velocidade de memória RAM, grande capacidade de armazenamento e recursos multimídia, como som de qualidade e lindos displays com boa resolução.

Nessa mesma época o iPhone estava brilhando – fazendo muito sucesso -. Enquanto isso uma revolução silenciosa estava acontecendo, o Google havia adquirido há algum tempo uma empresa que produzia softwares para celulares e em 2008 começou a fazer “barulho” com um tal de Android. Um sistema completo para smart phones, muito poderoso e com a grande vantagem de ser baseado em Linux (código aberto). Paralelamente surgiram outras iniciativas para os ultra portáteis, como distribuições Linux focadas em netbooks, com um conjunto mais enxuto de programas e uma aparência mais limpa, para ser comportado em telas compactas.

Muita coisa aconteceu e 2009 foi um ano para as tecnologias móveis de consolidarem e ganharem hardwares cada vez mais poderosos.

Agora, em 2010 o iPad fez um tremendo barulho, e me pergunto se todo esse alarde é realmente necessário. O entusiasmo e empolgação dos usuários de iPad logo se transformam em frustração, quando tentam acessar algum site não suportado pelo navegador, quando se sentem limitados pelas aplicações da AppStore ou quando se sentem  de mãos atadas por não poderem usar a tão difundida tecnologia Flash.

Não posso negar que um equipamento touch screen do tamanho do iPad é um brinquedinho realmente interessante para ver fotos, assistir um seriado casual ou simplesmente conferir e-mails e acessar conteúdo de uma forma muito elegante, contudo o advento dos tablets (como hoje são chamados) era algo previsível. Certamente em pouco tempo haverão equipamentos muito mais interessantes que o iPad, com um software a altura da expectativa dos usuários e com hardware capaz de interagir de forma simples com outros equipamentos, com interface USB (com e sem fio), leitor de cartões e por que não com a opção de usar um teclado e mouse?

Entre os telefones celulares e os Smart Phones já houveram os PDAs. Eu mesmo já tive alguns Palms e apesar de serem equipamentos muito legais sempre ficavam devendo no quesito comunicação. Quando os Smart Phones ficaram maduros os PDAs foram rapidamente condenados ao esquecimento.

Nesse breve histórico que citei nem vou mencionar outros tipos de computadores, como video-games, terminais dedicados e os computadores que estão anonimamente escondidos em todo tipo de equipamento, como TVs, fornos de micro-ondas, geladeiras e tudo que nos cerca hoje em dia.

Por intermédio da Figura 1 é possível entender o posicionamento de cada gadget e até mesmo o que está por vir. Por exemplo, quando não havia os tables, era possível imaginar que algo intermediário entre o Smart Phone e o Netbook surgiria. O modelo atual de tablet se baseia 100% nos celulares touch screen. Eu não duvido que em alguns meses surgirá um tipo de tablet que será ainda mais próximo ao netbook. Será algo parecido com os celulares touch screen que possuem teclado físico. Um tipo de tablet com teclado deslisável.

A faixa entre o notebook e o servidor (tendo o desktop como intermediário) no meu ponto de vista já está bem preenchida, então acredito que as “revoluções” (como os fabricantes insistem em chamar) acontecerão nos equipamentos situados entre smart phones e notebooks. Contudo, isso não é nenhuma novidade, afinal é nessa faixa onde estão ocorrendo as maiores novidades do mercado.

Acredito no aumento de capacidade de processamento e armazenamento dos smart phones, onde estes poderão ser o centro do nosso trabalho, entretenimento e cultura. Prova disso é que alguns smart phones já possuem capacidade de processamento e armazenamento maiores do que os primeiros netbooks.

Certamente o mundo continuará sendo hibrido por muito tempo, mas acredito que a computação em nuvem ainda tem um longo processo de amadurecimento e enquanto a Internet não for uma força presente em absolutamente todo lugar (assim como a energia elétrica é) o poder de processamento e armazenamento dos equipamentos móveis precisará aumentar mais e mais, e junto desse poder as aplicações de execução local seguirão o mesmo crescimento.

Vejo que no futuro próximo o smart phone será facilmente integrável com equipamentos de entrada e saída de maior capacidade, como teclados ergonômicos e displays grandes. Onde será possível trabalhar e se divertir da mesma forma como fazemos hoje com desktops, notebooks, TVs, DVDs e leitores de bluray.

Acredito que muito em breve chegaremos no escritório e por intermédio de conexões invisíveis usaremos monitores de tamanho confortável, teclado e mouse para interagir com o smart phone para as atividades que exijam sigilo. Quando o sigilo não for necessário, displays grandes (talvez holográficos) e com métodos de interação inovadores serão usados.

Muitas coisas dos usuários ficarão armazenadas na grande núvem, porém um porção grande de informação os acompanharão dentro dos smart phones, onde pessoas transferirão documentos, músicas e filmes por meio de conexões extremamente rápidas e sem fio. Quando as pessoas chegarem em casa poderão interagir com seus displays grandes (TVs) e aparelhos de som de forma simples e poderão compartilhar com seus familiares as histórias e conquistas do dia não só de forma falada, mas interativa.

E onde entra o Linux nessa história toda? Oras, em toda parte! Os equipamentos de maior sucesso em 2011 rodarão Linux. No próximo ano haverão concorrentes para o iPad muito superiores a esse rodando Android, Meego e outras distribuições Linux, a quantidade de smart phones com o sistema operacional aberto se expandirá ainda mais e por consequência as aplicações também.

Não sei quando será o ano do Linux no desktop, mas o ano do Linux em toda parte é o presente e o melhor é que nem percebemos, afinal, não há sistema melhor do que aquele que simplesmente funciona de forma tão perfeita que nem mesmo nos damos conta que ele está lá.

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